quarta-feira, junho 13

Depósito

Precisou de muita calma até que o poema brotasse
Um punhado de páprica e gengibre ralado
Precisou ter os pés cansados dos calcanhares judiados
De caminhar e caminhar e caminhar atrás de nada
Precisou que o sol raiasse trinta vezes,
A conta de um mês, e um pouco mais até
Para que as palavras se alinhassem
No horizonte precisou estabelecer-se o alvo
Inalcançável
E encontrar no último dia a alegria do primeiro júbilo adolescente
Foi preciso ficar nua, trocar de pele, reencarnar
Uma, duas, três vezes
E ter fantasmas enigmáticos grudados no teto
Questionando o porquê de uma quarta-feira azul
Ademais, sentir o cheiro da fumaça, do café queimado
Do vinho, do uísque, do cigarro indesejado, do ato indesejado,
Da grama do parque solitário e esfregar-se ao livro do poeta enterrado
Porque fora preciso!
Foi preciso imaginar respirar com a árvore e seus galhos deselegantes
E perder-se de amores por uma joaninha que me subiu o dorso
Lentamente
Lentamente
Foi preciso abaixar a voz, olhar o chão, esperar o soco
Sem nunca intencionalmente abandonar o combate
Pra aprender algo sobre o equilíbrio
E nada aprender exceto o aprendizado
E ter certeza de que não era nada disso
Nem outra coisa mais, nem mesmo aquele sonho
Ou devaneio
Foi preciso esperar
Aprender a esperar,
e sabendo esperar,
não olhar para trás.
Partir.

4 comentários:

  1. nascimento morte renascimento..
    carma darma
    vida

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  2. E esse "não olhar para trás" exige uma prática desgramenta! Gostei muito, como sempre.

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10:20