quinta-feira, março 15

Fala-me pelo vento

Já bebemos do céu o alvo supremo
E vagamos distâncias etéreas
E sonhamos no denso ventre
Em festa, junto a toda matéria
Sussurros harmônicos de novos universos.

Agora, por que te colocas à parte?
É por que tens mãos para tocar?
É por que tens olhos para ver?
É por que tens imaginação para criar?
Que crias tu, pequena criatura?

Se tuas mãos e teus olhos
Atiras sobre pequenas coisas
Se os lanças sobre ilusões
Se sonhas com eternidades
E as repousas sobre a carne
Desejando que perdurem em teus braços
Se amanhã nem braços tu mais terás!
Se nem olhos, nem mãos, nem imaginação
Que, então, restará de ti nesta vã eternidade
Senão teu breve sonho, senão tuas cinzas às traças.
Que serás de ti quando não o fores mais?
Serás outro! Serás outra coisa! Serás, serás
Cores, serás vento, serás chuva, serás vida
Serás, serás em todas as coisas
Eternos retornos inconstantes de si mesmos
Que irás tu me dizeres? Que irás tu proclamares?
Se todas as palavras são vãs, não digas nada,
Fala-me pelo vento.

E de teu coração rebento, deixa-te
Vai, esquece-te de medo, lança-te
A um universo maior, e contempla
Tua vida perante a aurora, cala-te
Não sofras, não chores, contempla

Não digas nada, fala-me pelo vento.

2 comentários:

  1. Brunna, que coisa mais maravilhosa estes versos. Que sublimes analogias, que perspicácia, que elegância ao falar do Cósmos, do Amor, da ignorância. Tua sabedoria é a Luz.

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  2. Cada verso, um devaneio: percepção, sensitividade.
    Há também densidade nos seus versos, Brunna.
    Esses mais marcaram: "Sussurros harmônicos de novos universos" e "Eternos retornos inconstantes de si mesmos". Os dois belamente mergulhando nas possibilidades cíclicas do devir em direção à própria ontologia.
    Bom passar por aqui.
    Abraço.

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10:20