sexta-feira, setembro 10

São cinco da manhã

São cinco da manha. Lá fora, o dia hesita. Carrego uma cara fodida de não dormir ou de dormir mal. Já não sei mais, de forma que toda noite é a repetição inconsciente da noite anterior. Além do mais estou doidona de tudo e qualquer coisa. Acendo um cigarro, tenho um ar desvairado, me sirvo de uísque para aguentar, não quero dormir. No espelho vejo meu reflexo deformado e digo a mim mesma que são apenas os excessos. De pó e de dó, de dor e de amor. Em plena pós-adolescência exaltada busco algum traço de minha inocência perdida, do outro lado apenas olhos vazios e negros. Ligo então Lou Reed, White Stripes e Led Zeppelin, tudo ao mesmo tempo. Lá fora, o dia hesita. Através da janela vejo as nuvens embaladas em uma dança perfeitamente coreografada e me dou conta do absurdo. São os excessos, repito. Enfiada em um fio dental preto, cigarro na boca e um copo na mão ando titubeante de um lado para o outro, agito meu corpo numa tentativa de me animar, a fim de ver o tempo passar. Sinto pena de mim. Uma tragada, aquele gosto amargo irreversível no fundo da garganta, me pergunto quando tudo isso irá cessar. Me convenço que tudo vai acabar: não vou mais sair, nem beber, nem fumar, nem me entupir de porcarias, nem me apaixonar, nem tentar me matar, muito menos cometer atos tresloucados as três da manha, não vou mais desperdiçar uma gota de meu tempo com nada disso, com esse meu eu-desperdício, esse meu eu-abissal.

Uma luz gentil denuncia o sol e me dou conta de que não faço ideia do que significa a palavra desperdício. Lá fora, o dia já chegou.

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